O estudo sobre a criação e aplicação de remédios propriamente ditos acaba ficando com a iniciativa privada, que tem mais dinheiro e estrutura - além do interesse econômico nisso. "Eles cuidam mais dessa etapa onde há as questões regulatórias, os testes clínicos, que exigem participação de pacientes, dinheiro", diz Katz. Elas são silenciosas, diz a OMS, "porque as pessoas afetadas ou em risco têm pouca voz política". Os pesquisadores destacam, no entanto, o grande avanço que será a liberação do fexinidazol para tratar a tripanossomíase africana humana, em 2019. O progresso em direção às metas de 2030 deve ser mantido no caminho certo, promovendo operações inovadoras e financiamento sustentável. A pandemia do COVID-19 e um cenário de mudança no financiamento, bem como um contexto internacional imprevisível, representam desafios para quem trabalha com DTNs.
Apesar de todos os esforços no combate às doenças negligenciadas, estima-se que 46 milhões de crianças na América Latina e no Caribe vivam em áreas de alto risco de infecção ou reinfecção com helmintos transmitidos pelo solo. A cada ano são relatados mais de 33 mil novos casos de hanseníase, 51 mil casos de leishmaniose, 25 milhões de novos casos de doença de Chagas são relatados e 12,6 milhões sofrem de filariose linfática. Os números descritos no estudo na PLOS Neglected Tropical Disease mostram que os investimentos do Brasil são modestos em comparação com outros países. No mesmo período, os Estados Unidos investiram quase US$ 1,8 bilhão, ao passo que o financiamento global alcançou US$ 4,05 bilhões, 7% a mais do que em 2017, segundo dados da organização G-Finder, que monitora investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) sobre produtos e tecnologias em saúde (ver Pesquisa FAPESP nº 302). Hérica destaca algumas ações que podem ser realizadas em termos de políticas públicas para o controle das doenças negligenciadas. “Esses trabalhos consistem na ampliação da pesquisa científica em serviço para buscar alternativas inovadoras para a prevenção e controle de doenças e agravos, na manutenção de equipes plenamente capacitadas para a realização das atividades em âmbito municipal, bem como na maior integração das ações com a Atenção Primária à Saúde”, cita.
“Nós atuamos sob demanda espontânea, por isso realizamos as análises de acordo com as necessidades do estado. O grande diferencial de um laboratório de saúde pública é que ele trabalha com o diagnóstico que é importante para a saúde da população naquele momento e não motivado por interesse econômico”, explica Josiane. No entanto, o ministério destacou uma lista de ações de combate às doenças negligênciadas que não envolvem pesquisa e desenvolvimento (e por isso não estão no relatório G-Finder), como "repasses extras anuais superiores a R$ 10 milhões para intensificação das ações de controle da malária nos Estados com maior registro de casos". As doenças negligenciadas constituem conjunto de doenças infecciosas altamente prevalentes, elas afetam profundamente a qualidade de vida e geram impactos socioeconômicos negativos para população dos países mais pobres. Dada a importância de se debater a respeito dessas doenças, será realizado, de 24 a 26 de maio na UFLA, o IV Simpósio Brasileiro de Doenças Negligenciadas (IV SBDN). Serão mais de vinte temas que abordarão, por exemplo, as leishmanioses, a hanseníase, as arboviroses (que incluem doenças como dengue, zika, febre chikungunya e febre amarela), a doença de chagas, as helmintoses (ascaridíase, teníase e esquistossomose são exemplos), sífilis e HIV.
O controle dos vetores continua a ser um componente importante da prevenção e controle das doenças de transmissão vetorial. – As estratégias relacionadas com a ecologia e a gestão de vetores devem ser centradas no desenvolvimento e na promoção de diretrizes baseando-se nos princípios da gestão integrada de vetores – um componente importante na prevenção e no controle das doenças de transmissão vetorial. Para o combate à hanseníase, o Ministério da Saúde desenvolveu a Estratégia Nacional para Enfrentamento da Hanseníase, que norteia estados e municípios para as ações de enfrentamento à doença. Em 2021, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), cerca de 20 DTNs foram registradas. Moléstias parasitárias, zoonoses como a leishmaniose visceral e a raiva, atingem humanos e animais e são encontradas com certa frequência na América do Sul.
Doenças negligenciadas são consideradas endêmicas em populações de baixa renda, especialmente na África, na Ásia e na América Latina. O projeto G-Finder cita 33 enfermidades em seu relatório anual sobre doenças negligenciadas, incluindo tuberculose e malária na lista. O projeto é organizado pelo centro de estudos Policy Cures Research, dedicado a buscar formas de promover avanços na saúde da população mais pobre no mundo, e patrocinado pela fundação Bill & Melinda Gates.
Para determinar temas de pesquisa que comporão os editais públicos e em consonância com as necessidades brasileiras, são realizadas oficinas de prioridades com a participação de gestores, pesquisadores e profissionais da área de saúde. Essas oficinas têm por objetivo nortear as chamadas públicas realizadas pelo Ministério da Saúde em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Ministério da Educação, fundações de amparo à pesquisa e secretarias estaduais de saúde e de ciência e tecnologia, entre outros parceiros. O desenvolvimento de intervenções e métodos combinados da saúde pública nos diversos territórios do Brasil pode contribuir para o controle deste grupo de doenças e levar à melhoria da qualidade de vida da pessoa acometida por uma doença tropical negligenciada. O problema é que, justamente em uma área tão dependente de investimento público, o gasto governamental com pesquisa e desenvolvimento vem caindo. Segundo um relatório da G-Finder publicado recentemente, o governo fez um corte de 42% em verbas para pesquisa em doenças negligenciadas entre 2016 e 2017.
É causada pelo parasita do gênero Plasmodium, transmitido ao homem, na maioria das vezes pela picada de mosquitos do gênero Anopheles infectados, também conhecido como mosquito-prego. “Muitas vezes, nossa contribuição será a produção de uma informação essencial que vai orientar uma ação estratégica pela equipe de gestão da saúde do estado”, afirma Josiane. “Os outros seis fármacos aprovados de 2012 para cá para esse grupo de doenças foram reposicionados, biológicos ou novas formulações. Os reposicionados, por exemplo, eram aplicados no tratamento de outras enfermidades e acabaram sendo aprovados para novos usos clínicos. Em todos os casos não se trata do que chamamos de novas entidades químicas, que são fruto de inovação em relação à diversidade química e aplicação terapêutica”, disse Adriano Andricopulo, professor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP e um dos autores do estudo.
De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), essas doenças são associadas a precárias condições de vida e higiene. A cada dia cerca de 3 mil pessoas morrem no mundo vítima de doenças negligenciadas como a Malária, doença de Chagas, Dengue, Leishmaniose, Hanseníase (Lepra), Filariose (Elefantíase), Oncocercose (Cegueira dos Rios ou Mal do Garimpeiro), Esquistossomose (Barriga d’água), Tracoma, Helmintíases (verminoses) e outras. ALGUNS AVANÇOS Desde 2006, a OMS e suas mais de organizações parceiras adotam a quimioterapia preventiva como estratégia de combate à oncocercose, à filariose linfática, à esquistossomose e às geohelmintíases. Para combatê-las, populações afetadas recebem medicamentos a preços muito reduzidos ou doados por fabricantes.
Descubra os segredos de